A “Exposição sobre o Método Original do Bastão de Shaolin”, de Cheng Zongyou
O mais antigo manual existente sobre as artes marciais de Shaolin foi
dedicado às técnicas de combate com bastão. Intitulada Shaolin gunfa chan
zong, (“Exposição sobre o Método Original do Bastão de Shaolin”, a que
chamaremos daqui para a frente de “Método do Bastão de Shaolin”), a obra foi
compilada por volta de 1610 por um especialista militar chamado Cheng Zongyou
(que assinava como Chongdou) de Xiuning, área administrativa de Huizhou, na
parte sul da atual Anhui. A família Cheng pertencia à elite local e seus membros
no período Ming tardio incluíam vários graduados e também scholars
reconhecidos. Entretanto, os interesses de Zhangyou – como o de muitos irmãos e
sobrinhos dele – não estavam nos ensinamentos clássicos, mas nas artes
militares. Nós temos uma descrição da casa de Cheng – Zongyou e seus irmãos –
demonstrando técnicas marciais ao yamen local, bem como uma contagem de
uma poderosa força militar de 80 homens treinada por Zongyou e formada
inteiramente por membros de sua propriedade.
Cheng Zongyou não era nem um bandido e nem um membro dos grupos militares
herediários Ming - de quem se poderia esperar o desenvolvimento de maestria
marcial. Na verdade, ele pertencia a um cenário de literatos, e entre seus
conhecidos se contavam renomados scholars. Ainda assim, as artes marciais eram
sua paixão, um gosto compartilhado com outros integrantes de sua classe. O mais
antigo existente manual da “escola interna” (neijia) de combate, por
exemplo, foi compilado por Huang Baijia (1643 - ?), filho do renomado
scholar Huang Zongxi (1610 – 1695); métodos do século XVII de combate
com lança foram registrados por Wu Shu (1661 – 1695), que também foi poeta e
crítico literário. Estes literatos eram freqüentemente treinados por instrutores
de baixo estrato social. Sua contribuição para a história das artes marciais
está ligada ao registro das técnicas, que, por sua origem nas classes iletradas,
poderiam ter ficado sem registro.
Em adição a esse “Método de Bastão de Shaolin”, Cheng Zongyou compilou um
manual de técnicas de arco-e-flecha intitulado She Shi (“História do
Arco-e-Flecha”, com prefácio de 1629), bem como tratados sobre as técnicas da
lança, facão e besta. Em 1621 ele lançou esses três tratados, junto com o seu
manual sobre o bastão de Shaolin, em uma edição combinada intitulada Geng yu
sheng ji (“Técnicas de Passatempo para depois do Trabalho no
Campo”). A relativa extensão dos manuais incluídos
nesta edição (que possuía várias ilustrações feitas à mão) não deixa dúvidas de
que, como o próprio Cheng reconhecia, o bastão era a sua arma de escolha. A
extensão do texto do “Método de Bastão de Shaolin” é a mesma dos outros três
manuais combinados.
A familiaridade de Cheng com o combate com bastão se devia ao longo tempo que
ele passou no mosteiro Shaolin. De acordo com seu próprio testemunho, seu
aprendizado durou não menos que dez anos. Sua descrição do treinamento mostra
que pelo menos um mosteiro budista forneceu à sociedade Ming tardia um original
serviço de educação marcial. O ambiente de Shaolin surge de seus escritos como
um lugar onde clérigos e leigos eram treinados juntos nas técnicas de combate
com bastão: “O Mosteiro de Shaolin está aninhado entre duas montanhas: a da
cultura (wen) e a do combate (wu). De fato este mosteiro
transmitiu o método de combate com bastão e as doutrinas da seita Chan juntos,
por esta razão cavalheiros de todo a região sempre o admiraram. Desde a minha
juventude eu estive determinado a aprender artes marciais. Sempre que ouvia
falar de um famoso professor, não hesitava em viajar para longe a fim de ganhar
sua instrução. Consequentemente eu obtive o dinheiro necessário para as despesas
de viagem e viajei para o Mosteiro de Shaolin, onde gastei, ao todo, mais de dez
anos. Primeiro servi ao Mestre Hongji, que foi suficientemente tolerante para me
admitir em sua turma. Mesmo que tenha ganho um conhecimento incompleto das
linhas gerais principais da técnica, não adquiri a maestria.
Nessa época o Mestre Hongzhuan já era um homem idoso, em seus oitenta
anos. Não obstante, seu método de bastão era
soberbo, e os monges o veneravam ao máximo. Consequentemente, me voltei a ele
como meu próximo professor, e a cada dia eu aprendi novas coisas, de que nunca
ouvira falar. Além disso, fiz amizade com os dois Mestres, Zongxiang e Zongdai,
e ganhei enormemente por praticar com eles. Mais tarde me encontrei com o Mestre
Guang´an, um dos melhores especialistas na técnica budista. Ele havia herdado a
técnica de Hongzhuan em sua totalidade, e ainda a fortaleceu. Guang´an
instruiu-me pessoalmente e revelou-me maravilhosas sutilezas. Mais tarde o segui
fora do mosteiro e nós viajamos juntos por muitos anos. A maravilhosa
complexidade das transformações do bastão, a maravilhosa leveza das suas
manipulações – inicialmente eu não as havia alcançado, mas gradualmente me
familiarizei e fui iluminado. Escolhi este campo como minha especialidade e
acredito que alcancei algumas realizações.
Também dediquei alguma atenção à investigação do arco-e-flecha e da
equitação, bem como à das artes da espada e da lança, ainda que, por essa época,
minha energia de meia-idade já tivesse sido gasta. Meu grande tio, o estudante
militar (wu xuesheng) Yunshui e meu sobrinho Junxin e o estudante da
Universidade Nacional (taixuesheng) Hanchu estudaram comigo uma vez em
Shaolin. Eles observaram que o método de bastão de Shaolin era transmitido
apenas oralmente, de um mestre budista para outro. Como eu havia sido o primeiro
a produzir ilustrações e a compilar por escrito fórmulas para o método, ele
sugeriram que eu o publicasse para benefício para meus semelhantes. Em princípio
declinei, dizendo que não estava à altura da tarefa. Mas, então, ilustres
cavalheiros de toda a terra começaram a elogiar os supostos méritos do meu
trabalho. Eles então me responsabilizaram pela manutenção do método em segredo,
o que os privava dele. Então finalmente encontrei algum tempo livre, reuni as
doutrinas passadas a mim por professores e amigos, e as combinei com o que eu
havia aprendido em minha própria experiência. Contratei um artesão para fazer os
desenhos, e, como meus escritos são algo medíocres, acrescentei à direita de
cada desenho um fórmula rimada (gejue).
Juntos, esses desenhos e fórmulas constituem um volume, que intitulei:
“Exposição sobre o Método Original de Bastão de Shaolin”. Um olhar de relance
sobre um dos desenhos provavelmente seria suficiente para imaginar a posição
nele representada. Dessa forma, o leitor estaria habilitado a estudar o método
sem a ajuda de um professor. A despeito de sua aparente simplicidade, cada
sentença captura o segredo da vitória e da derrota, cada desenho abriga a
essência do movimento. Mesmo que a luta com bastão seja conhecida como uma arte
trivial, neste livro ela é resultado de um esforço extenuante.
Se esse livro ajudar meus semelhantes a alcançarem o outro lado, se eles
confiarem nele para fortalecer o Estado e pacificar suas fronteiras e, assim
fazendo, reforçar a glória dos métodos de meus professores, outra de minhas
metas terá sido cumprida.
A esperança de Cheng, de que o “Método de Bastão de Shaolin” pudesse
fortalecer a fama de seus instrutores monásticos, não foi frustrada. Logo depois
da publicação do manual, o renomado Mao Yuanyi (1549 – cerca de 1641) comentou:
“Todas as técnicas de combate derivam dos métodos de bastão, e todos os métodos
de bastão derivam de Shaolin. Para o método [de bastão] de Shaolin não há
descrição tão detalhada quanto... a “Exposição do Método Original de Bastão de
Shaolin”, de Cheng Zongyou.”Mao estava tão impressionado com o manual de
Cheng que o incorporou quase que na totalidade em sua enciclopédia Wubei
Zhi (“Tratado de Preparações Militares”).
A exaustiva apresentação do método de bastão de Shaolin de Zheng começa com
uma descrição da arma. Ele fornece especificações de altura, peso e materiais
para a produção do bastão, arma que, como a maioria dos especialistas do período
Ming tardio, ele chama gun. De acordo com Cheng, o bastão poderia ser
produzido em madeira ou ferro. No caso do bastão de madeira, a altura
recomendada variava entre 8 e 8.5 chi (o que, durante a Dinastia Ming,
equivaleria uma medida entre 2,40 m e 2,50 m) e o peso entre 2,5 e 3
jin (1,4 kg a 1,7 kg). O bastão de ferro era ligeiramente menor (7,5
chi ou 2,2 metros), com peso recomendado variando entre 15 e 16
jin (8,8 kg a 9,4 kg). Cheng também discute o tipo de madeira a ser
utilizado na preparação do bastão: Da mesma forma como variam as regiões do
país, também variam os tipos de madeira. Assim como a madeira é sólida e densa,
assim como ela é ao mesmo tempo dura e flexível, crescendo e afinando da base
até o alto da árvore como um rabo de camundongo, ele [o bastão] será
satisfatório. Uma vara reta, que seja naturalmente livre de cicatrizes e nós,
será preferível. Em contraste, se um bastão é fabricado por desbaste ou serra,
ele poderá se quebrar facilmente a partir dos veios da madeira.
Cheng distinguiu 53 posturas individuais de bastão (shi). Cada uma
delas foi representada por um desenho, acompanhado por uma “fórmula rimada”
explicativa (ver fig. 1). Posturas individuais eram colocadas juntas em
seqüências de prática chamadas lushi (“seqüência de posições”).
Intrincados diagramas guiavam o praticante na execução dessas seqüências que
simulavam o tipo de movimento que caracterizava uma batalha real (ver fig.2).
Finalmente, muitas seqüências de prática eram combinadas naquilo que Cheng
chamou de um “método” (fa). Ao todo, ele listou cinco diferentes
métodos de bastão de Shaolin: “O Pequeno Espírito Yaksa” (Xiao Yecha);
“O Grande Espírito Yaksa” (Da Yecha) “Mãos Ocultas” (Yinshou);
“Bastão que Empurra” (Pai gun); e “Bastão de Aplicação Compassada” [no
original, shittling – N.T.] (Chuansuo). O “Bastão que Empurra” diferia
dos outros quatro métodos por ser mais de execução em dupla do que individual;
e, tanto ele quanto o método do “Bastão de Aplicação Compassada” diferiam dos
outros três por serem “métodos livres sem posições fixas” (huo fa wu ding
shi).
De acordo com Cheng, todos os cinco métodos eram originários do mosteiro. A
esse respeito, não é por acaso que a palavra “original” (zong) aparece
no título de seu manual: “Exposição do Método Original de Bastão de
Shaolin”. A meta de Cheng era expor o que ele afirmou serem autênticas técnicas
de Shaolin, distintas dos numerosos outros métodos que – ainda que carregassem o
nome do mosteiro – haviam sido há muito removidos do ensinamento original. Sua
observação sobre a originalidade do método reflete a fama que o mosteiro de
Shaolin havia adquirido no início do século XVII. Não fosse por seu
reconhecimento, praticantes de outras técnicas não teriam desejado capitalizar
sobre o nome do mosteiro e nem Cheng teria alertado para o fato de estar
apresentando o método “original” de bastão de Shaolin.
Assim, o “Método de Bastão de Shaolin” revela um cenário familiar no atual
mundo das artes marciais: de competição entre escolas, com cada uma afirmando
ser a única herdeira de um mesmo ensinamento original. A rivalidade entre
especialistas em artes marciais que chamavam para si a posse do “autêntico”
ensinamento de Shaolin é mais visível na seção de “Perguntas e Respostas” do
“Método de Bastão de Shaolin”, onde Cheng coloca o seguinte questionamento,
feito por um interlocutor hipotético: “Hoje não há poucos especialistas no
bastão de Shaolin. E seus métodos, todos, variam entre si. Como é possível que,
pela escolha de um professor diferente, um praticante termine por aprender uma
técnica diferente?
Eu expliquei: “Os ensinamentos derivam todos da mesma fonte. Ainda assim, com
a passagem do tempo as pessoas voltaram suas costas para esse fato. Professores
estimam métodos incomuns, e preferem técnicas estranhas. Algumas pegam a seção
inicial desta seqüência de prática (lu) e misturam com a seção
de fechamento daquela seqüência. Outros tomam a seção de encerramento
daquela seqüência e a misturam com a seqüência intermediária
desta seqüência. De tal forma que, aquilo que era originalmente uma
seqüência acaba sendo transformado em duas. Assim, professores confundem o mundo
e levam os praticantes a erro, tudo em busca de fama e fortuna. Estou muito
magoado com essa situação e é exatamente por isso que estou lutando para colocar
as coisas direito.”
Fonte: http://www.pucsp.br/rever
Revista Eletrônica Rever - ISSN
1677-1222
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