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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A “Exposição sobre o Método Original do Bastão de Shaolin”, de Cheng Zongyou

     O mais antigo manual existente sobre as artes marciais de Shaolin foi dedicado às técnicas de combate com bastão. Intitulada Shaolin gunfa chan zong, (“Exposição sobre o Método Original do Bastão de Shaolin”, a que chamaremos daqui para a frente de “Método do Bastão de Shaolin”), a obra foi compilada por volta de 1610 por um especialista militar chamado Cheng Zongyou (que assinava como Chongdou) de Xiuning, área administrativa de Huizhou, na parte sul da atual Anhui. A família Cheng pertencia à elite local e seus membros no período Ming tardio incluíam vários graduados e também scholars reconhecidos. Entretanto, os interesses de Zhangyou – como o de muitos irmãos e sobrinhos dele – não estavam nos ensinamentos clássicos, mas nas artes militares. Nós temos uma descrição da casa de Cheng – Zongyou e seus irmãos – demonstrando técnicas marciais ao yamen local, bem como uma contagem de uma poderosa força militar de 80 homens treinada por Zongyou e formada inteiramente por membros de sua propriedade.
     Cheng Zongyou não era nem um bandido e nem um membro dos grupos militares herediários Ming - de quem se poderia esperar o desenvolvimento de maestria marcial. Na verdade, ele pertencia a um cenário de literatos, e entre seus conhecidos se contavam renomados scholars. Ainda assim, as artes marciais eram sua paixão, um gosto compartilhado com outros integrantes de sua classe. O mais antigo existente manual da “escola interna” (neijia) de combate, por exemplo, foi compilado por Huang Baijia (1643 - ?), filho do renomado scholar Huang Zongxi (1610 – 1695); métodos do século XVII de combate com lança foram registrados por Wu Shu (1661 – 1695), que também foi poeta e crítico literário. Estes literatos eram freqüentemente treinados por instrutores de baixo estrato social. Sua contribuição para a história das artes marciais está ligada ao registro das técnicas, que, por sua origem nas classes iletradas, poderiam ter ficado sem registro.
     Em adição a esse “Método de Bastão de Shaolin”, Cheng Zongyou compilou um manual de técnicas de arco-e-flecha intitulado She Shi (“História do Arco-e-Flecha”, com prefácio de 1629), bem como tratados sobre as técnicas da lança, facão e besta. Em 1621 ele lançou esses três tratados, junto com o seu manual sobre o bastão de Shaolin, em uma edição combinada intitulada Geng yu sheng ji (“Técnicas de Passatempo para depois do Trabalho no Campo”). A relativa extensão dos manuais incluídos nesta edição (que possuía várias ilustrações feitas à mão) não deixa dúvidas de que, como o próprio Cheng reconhecia, o bastão era a sua arma de escolha. A extensão do texto do “Método de Bastão de Shaolin” é a mesma dos outros três manuais combinados.
     A familiaridade de Cheng com o combate com bastão se devia ao longo tempo que ele passou no mosteiro Shaolin. De acordo com seu próprio testemunho, seu aprendizado durou não menos que dez anos. Sua descrição do treinamento mostra que pelo menos um mosteiro budista forneceu à sociedade Ming tardia um original serviço de educação marcial. O ambiente de Shaolin surge de seus escritos como um lugar onde clérigos e leigos eram treinados juntos nas técnicas de combate com bastão: “O Mosteiro de Shaolin está aninhado entre duas montanhas: a da cultura (wen) e a do combate (wu). De fato este mosteiro transmitiu o método de combate com bastão e as doutrinas da seita Chan juntos, por esta razão cavalheiros de todo a região sempre o admiraram. Desde a minha juventude eu estive determinado a aprender artes marciais. Sempre que ouvia falar de um famoso professor, não hesitava em viajar para longe a fim de ganhar sua instrução. Consequentemente eu obtive o dinheiro necessário para as despesas de viagem e viajei para o Mosteiro de Shaolin, onde gastei, ao todo, mais de dez anos. Primeiro servi ao Mestre Hongji, que foi suficientemente tolerante para me admitir em sua turma. Mesmo que tenha ganho um conhecimento incompleto das linhas gerais principais da técnica, não adquiri a maestria.
Nessa época o Mestre Hongzhuan já era um homem idoso, em seus oitenta anos. Não obstante, seu método de bastão era soberbo, e os monges o veneravam ao máximo. Consequentemente, me voltei a ele como meu próximo professor, e a cada dia eu aprendi novas coisas, de que nunca ouvira falar. Além disso, fiz amizade com os dois Mestres, Zongxiang e Zongdai, e ganhei enormemente por praticar com eles. Mais tarde me encontrei com o Mestre Guang´an, um dos melhores especialistas na técnica budista. Ele havia herdado a técnica de Hongzhuan em sua totalidade, e ainda a fortaleceu. Guang´an instruiu-me pessoalmente e revelou-me maravilhosas sutilezas. Mais tarde o segui fora do mosteiro e nós viajamos juntos por muitos anos. A maravilhosa complexidade das transformações do bastão, a maravilhosa leveza das suas manipulações – inicialmente eu não as havia alcançado, mas gradualmente me familiarizei e fui iluminado. Escolhi este campo como minha especialidade e acredito que alcancei algumas realizações.
     Também dediquei alguma atenção à investigação do arco-e-flecha e da equitação, bem como à das artes da espada e da lança, ainda que, por essa época, minha energia de meia-idade já tivesse sido gasta. Meu grande tio, o estudante militar (wu xuesheng) Yunshui e meu sobrinho Junxin e o estudante da Universidade Nacional (taixuesheng) Hanchu estudaram comigo uma vez em Shaolin. Eles observaram que o método de bastão de Shaolin era transmitido apenas oralmente, de um mestre budista para outro. Como eu havia sido o primeiro a produzir ilustrações e a compilar por escrito fórmulas para o método, ele sugeriram que eu o publicasse para benefício para meus semelhantes. Em princípio declinei, dizendo que não estava à altura da tarefa. Mas, então, ilustres cavalheiros de toda a terra começaram a elogiar os supostos méritos do meu trabalho. Eles então me responsabilizaram pela manutenção do método em segredo, o que os privava dele. Então finalmente encontrei algum tempo livre, reuni as doutrinas passadas a mim por professores e amigos, e as combinei com o que eu havia aprendido em minha própria experiência. Contratei um artesão para fazer os desenhos, e, como meus escritos são algo medíocres, acrescentei à direita de cada desenho um fórmula rimada (gejue).
     Juntos, esses desenhos e fórmulas constituem um volume, que intitulei: “Exposição sobre o Método Original de Bastão de Shaolin”. Um olhar de relance sobre um dos desenhos provavelmente seria suficiente para imaginar a posição nele representada. Dessa forma, o leitor estaria habilitado a estudar o método sem a ajuda de um professor. A despeito de sua aparente simplicidade, cada sentença captura o segredo da vitória e da derrota, cada desenho abriga a essência do movimento. Mesmo que a luta com bastão seja conhecida como uma arte trivial, neste livro ela é resultado de um esforço extenuante.
Se esse livro ajudar meus semelhantes a alcançarem o outro lado, se eles confiarem nele para fortalecer o Estado e pacificar suas fronteiras e, assim fazendo, reforçar a glória dos métodos de meus professores, outra de minhas metas terá sido cumprida.
     A esperança de Cheng, de que o “Método de Bastão de Shaolin” pudesse fortalecer a fama de seus instrutores monásticos, não foi frustrada. Logo depois da publicação do manual, o renomado Mao Yuanyi (1549 – cerca de 1641) comentou: “Todas as técnicas de combate derivam dos métodos de bastão, e todos os métodos de bastão derivam de Shaolin. Para o método [de bastão] de Shaolin não há descrição tão detalhada quanto... a “Exposição do Método Original de Bastão de Shaolin”, de Cheng Zongyou.”Mao estava tão impressionado com o manual de Cheng que o incorporou quase que na totalidade em sua enciclopédia Wubei Zhi (“Tratado de Preparações Militares”).
     A exaustiva apresentação do método de bastão de Shaolin de Zheng começa com uma descrição da arma. Ele fornece especificações de altura, peso e materiais para a produção do bastão, arma que, como a maioria dos especialistas do período Ming tardio, ele chama gun. De acordo com Cheng, o bastão poderia ser produzido em madeira ou ferro. No caso do bastão de madeira, a altura recomendada variava entre 8 e 8.5 chi (o que, durante a Dinastia Ming, equivaleria uma medida entre 2,40 m e 2,50 m) e o peso entre 2,5 e 3 jin (1,4 kg a 1,7 kg). O bastão de ferro era ligeiramente menor (7,5 chi ou 2,2 metros), com peso recomendado variando entre 15 e 16 jin (8,8 kg a 9,4 kg). Cheng também discute o tipo de madeira a ser utilizado na preparação do bastão: Da mesma forma como variam as regiões do país, também variam os tipos de madeira. Assim como a madeira é sólida e densa, assim como ela é ao mesmo tempo dura e flexível, crescendo e afinando da base até o alto da árvore como um rabo de camundongo, ele [o bastão] será satisfatório. Uma vara reta, que seja naturalmente livre de cicatrizes e nós, será preferível. Em contraste, se um bastão é fabricado por desbaste ou serra, ele poderá se quebrar facilmente a partir dos veios da madeira.
    Cheng distinguiu 53 posturas individuais de bastão (shi). Cada uma delas foi representada por um desenho, acompanhado por uma “fórmula rimada” explicativa (ver fig. 1). Posturas individuais eram colocadas juntas em seqüências de prática chamadas lushi (“seqüência de posições”). Intrincados diagramas guiavam o praticante na execução dessas seqüências que simulavam o tipo de movimento que caracterizava uma batalha real (ver fig.2). Finalmente, muitas seqüências de prática eram combinadas naquilo que Cheng chamou de um “método” (fa). Ao todo, ele listou cinco diferentes métodos de bastão de Shaolin: “O Pequeno Espírito Yaksa” (Xiao Yecha); “O Grande Espírito Yaksa” (Da Yecha) “Mãos Ocultas” (Yinshou); “Bastão que Empurra” (Pai gun); e “Bastão de Aplicação Compassada” [no original, shittling – N.T.] (Chuansuo). O “Bastão que Empurra” diferia dos outros quatro métodos por ser mais de execução em dupla do que individual; e, tanto ele quanto o método do “Bastão de Aplicação Compassada” diferiam dos outros três por serem “métodos livres sem posições fixas” (huo fa wu ding shi).
     De acordo com Cheng, todos os cinco métodos eram originários do mosteiro. A esse respeito, não é por acaso que a palavra “original” (zong) aparece no título de seu manual: “Exposição do Método Original de Bastão de Shaolin”. A meta de Cheng era expor o que ele afirmou serem autênticas técnicas de Shaolin, distintas dos numerosos outros métodos que – ainda que carregassem o nome do mosteiro – haviam sido há muito removidos do ensinamento original. Sua observação sobre a originalidade do método reflete a fama que o mosteiro de Shaolin havia adquirido no início do século XVII. Não fosse por seu reconhecimento, praticantes de outras técnicas não teriam desejado capitalizar sobre o nome do mosteiro e nem Cheng teria alertado para o fato de estar apresentando o método “original” de bastão de Shaolin.
     Assim, o “Método de Bastão de Shaolin” revela um cenário familiar no atual mundo das artes marciais: de competição entre escolas, com cada uma afirmando ser a única herdeira de um mesmo ensinamento original. A rivalidade entre especialistas em artes marciais que chamavam para si a posse do “autêntico” ensinamento de Shaolin é mais visível na seção de “Perguntas e Respostas” do “Método de Bastão de Shaolin”, onde Cheng coloca o seguinte questionamento, feito por um interlocutor hipotético: “Hoje não há poucos especialistas no bastão de Shaolin. E seus métodos, todos, variam entre si. Como é possível que, pela escolha de um professor diferente, um praticante termine por aprender uma técnica diferente?
      Eu expliquei: “Os ensinamentos derivam todos da mesma fonte. Ainda assim, com a passagem do tempo as pessoas voltaram suas costas para esse fato. Professores estimam métodos incomuns, e preferem técnicas estranhas. Algumas pegam a seção inicial desta seqüência de prática (lu) e misturam com a seção de fechamento daquela seqüência. Outros tomam a seção de encerramento daquela seqüência e a misturam com a seqüência intermediária desta seqüência. De tal forma que, aquilo que era originalmente uma seqüência acaba sendo transformado em duas. Assim, professores confundem o mundo e levam os praticantes a erro, tudo em busca de fama e fortuna. Estou muito magoado com essa situação e é exatamente por isso que estou lutando para colocar as coisas direito.”
Revista Eletrônica Rever - ISSN 1677-1222

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